terça-feira, 25 de setembro de 2012

CRÍTICA TEATRAL - BONECO E MANIPULADOR IGUALADOS NA SOLIDÃO (POR LUCIANA ROMAGNOLLI)



Acompanhem agora a crítica publicado no site do FENTEPP (Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente) onde o espetáculo foi apresentado dia 24/09/2012:

Desde a entrada da atriz e manipuladora Paloma Barreto com vestes de papel-jornal, cumprindo uma movimentação rígida e de mãos tateantes, aquém à mobilidade potencial de um corpo humano, o espetáculo “Cinza” funda uma zona de embaralhamento entre o animado e o inanimado. Essa será uma tensão latente, embora nunca radicalizada, na encenação da Cia. Fio de Sombra, à medida que se estabeleça a interação entre a manipuladora e o pequeno boneco igualmente feito de páginas de jornal por ela encontrado entre montes e caixas de mais folhas de noticiário a recobrir o palco.
Oculta sob um chapéu de abas largas, a manipuladora anima o boneco executando um roteiro de ações erráticas condizentes a um homem abandonado em meio a restos da civilização. A onipresença dos jornais, notadamente norte-americanos, instaura um signo documental no espetáculo, de cunho adulto, e acena para uma crítica socioeconômica ao sistema capitalista que exclui seres como aqueles: boneco e manipuladora. Sim, pois também ela se configura como uma excluída, uma vez que a consciência da presença da atriz é logo despertada no boneco. A dramaturgia se constrói de modo que ela o manipule em aparente apatia, mas faça com que ele a procure insistentemente, em impulsos de indagação, consulta e fuga.
A interação que assim se delineia entre manipuladora e boneco tende a diminuir a distância entre os dois planos, o do inanimado e do animado, numa tentativa de convívio que, dentro da dramaturgia criada por Rafael Curci, significaria a ruptura da solidão na qual cada um está afundado.
Desse modo, a companhia de Campinas joga com a linguagem do teatro de bonecos, deslocando o foco que habitualmente recai somente sobre o objeto manipulado para um questionamento relativo ao isolamento do manipulador na técnica japonesa do kuruma ningyo – na qual cada boneco é animado por apenas uma pessoa, que tem as mãos e os pés livres para essa ação porque se apóia e se desloca sobre um banco com rodas. Aí reside a maior sofisticação do trabalho do grupo: na elaboração metalingüística, que se serve de características específicas da linguagem para promover os sentidos do espetáculo.
Contudo, as escolhas visuais impedem que esse procedimento seja colhido com maior clareza pelo olhar do público. Distinguir as formas torna-se uma dificuldade decorrente da opção pelo papel-jornal como substância de toda cenografia e figurino. Por mais que o material dê unidade e faça sentido dentro do universo proposto, em certos momentos não se pode reconhecer os objetos nem os limites dos corpos da manipuladora e do boneco. Tal confusão bem poderia ser um efeito a somar-se ao embaralhamento dos planos animado e inanimado, mas, em vez disso, atua como um ruído, borrando o delineio da gestualidade do boneco, de modo a ocasionalmente quebrar a ilusão pretendida.
“Cinza” escapa de ser um retrato trivial da rotina de um miserável no momento em que complexifica essa relação com a manipuladora, assumindo-a como personagem para além daquele boneco específico. Sobrepõe-se, ao abandono social representado pelo homem-objeto, uma camada na qual a memória de uma tragédia íntima se insinua no comportamento repetitivo e obsessivo da manipuladora (porém, a esta altura, a encenação impõe ao espectador uma nova dificuldade visual, sentida especialmente pela plateia mais distante do palco). A opção pela sutileza do implícito e por uma dramaturgia aberta mantém o espetáculo num campo de abstração e de sentidos dispersos. Fica o desejo por ver o grupo verticalizar as possibilidades metalingüísticas e narrativas deste trabalho, de modo a prover sua delicada construção de um maior poder de afetação.  

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Crítica – “Cinza” (Cia. Fios de sombra, Campinas)

Bom pessoal, nos postes anteriores, eu publiquei o vídeo quase na íntegra do espetáculo Cinza, produzido pela Fios de Sombra, Cia de Teatro a qual faço parte.
Essa semana estivemos no Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba, o Festivale que já está em sua 27° edição, e abaixo segue a crítica feita por Kil Abreu.


Abertura ou fechamento?
Crítica – “Cinza” (Cia. Fios de sombra, Campinas)
Kil Abreu

O espetáculo da Cia. Fios de sombra nos mostrou um grupo em pleno movimento de apropriação dos seus materiais expressivos. É claro que de um modo geral o artista está quase sempre em movimento, cada obra é uma e por mais modesta lança em perspectiva a inauguração de um pequeno mundo a partir de si mesma. Mas aqui trata-se, a tomar por este trabalho, de um processo formativo francamente em curso, que inclui o exercício a partir das técnicas de manipulação e contracenação entre bonecos, atores e objetos, a pesquisa dramatúrgica e outras variantes.
Pode-se dizer que este “Cinza” é uma montagem que experimenta os resultados alcançados em todas estas frentes e, como trabalho formativo, concentra as descobertas e a tentativa de afinação dos materiais pesquisados.  Na área técnica, em que interessa fundamentalmente o domínio da manipulação e a contracena entre boneco e ator, sem dúvida já há ossatura suficiente para que se possa caminhar sobre as pernas de um repertório razoável. A formação da atriz e manipuladora Paloma Barreto, vinda da dança, empresta  senso de medida aos movimentos, o que é muito favorável à cena. Ajuda a tatear os tempos da ação sem atropelos e demonstra a segurança da gestualidade que nasce de um trabalho físico evidente.
Se esta frente está suficientemente coberta o mesmo não se pode dizer da narrativa. A encenação parece ter um gosto maior pelo acabamento plástico e pelo rendimento técnico que pelo acabamento dramatúrgico, ainda que na forma do espetáculo todas estas coisas apareçam amalgamadas. Dramaturgia aqui não significa nenhum tipo de compromisso com uma história redonda, com linearidade fabular ou com aristotelismos de nenhuma ordem. Significa apenas o chamado ao arredondamento do espetáculo na chave escolhida. 
O imaginário da peça anuncia sem dúvida um fundo social (dois personagens que vivem no lixo), explorado na  perspectiva de uma reflexão íntima. Entretanto a narrativa não tem ponto de vista (não se sabe se ela acontece a partir do olhar do personagem representado pela atriz, a partir do personagem do boneco ou se por outro, distanciado da ação). Não existem regras a serem aplicadas em relação a isto, senão aquelas apontadas como convenções da própria montagem. E  as convenções são vacilantes, de maneira que há um fio de história parcialmente sugerido  na relação entre as duas personagens e há também o apontamento de uma narrativa implícita, que deveria ser disparada a partir daquela primeira, mais referencial. A questão é que o espetáculo não se afirma nem em um nem em outro plano. Acaba se arredondando com alguma dificuldade de sentido. 
O que se disse no debate após a apresentação, sobre a desejada “abertura” de significados e a substância poética que demarcaria a linguagem  é um bom argumento e em parte pode justificar isto, mas não rigorosamente. Talvez seja preciso ainda ao grupo verificar se a abertura desejada não está, objetivamente, redundando em fechamento. Se aquilo que o encenador batizou “ signos” metafóricos estão presentes na representação com a potência poética esperada,  a ponto de abrir as portas para   leituras que, mesmo particulares, possam estar sustentadas. É preciso avaliar, então, que a metáfora também tem qualidades diferentes, não é um recurso de linguagem com um valor em si. 
Pela delicadeza das soluções e a preocupação formal apresentadas neste espetáculo é possível ver que a Cia. Fios de sombra já tem bons elementos para movimentar com mais desenvoltura os aspectos narrativos do seu trabalho, que certamente estão bem colados às soluções plásticas, mas não se bastam nelas.