terça-feira, 11 de setembro de 2012

Crítica – “Cinza” (Cia. Fios de sombra, Campinas)

Bom pessoal, nos postes anteriores, eu publiquei o vídeo quase na íntegra do espetáculo Cinza, produzido pela Fios de Sombra, Cia de Teatro a qual faço parte.
Essa semana estivemos no Festival Nacional de Teatro do Vale do Paraíba, o Festivale que já está em sua 27° edição, e abaixo segue a crítica feita por Kil Abreu.


Abertura ou fechamento?
Crítica – “Cinza” (Cia. Fios de sombra, Campinas)
Kil Abreu

O espetáculo da Cia. Fios de sombra nos mostrou um grupo em pleno movimento de apropriação dos seus materiais expressivos. É claro que de um modo geral o artista está quase sempre em movimento, cada obra é uma e por mais modesta lança em perspectiva a inauguração de um pequeno mundo a partir de si mesma. Mas aqui trata-se, a tomar por este trabalho, de um processo formativo francamente em curso, que inclui o exercício a partir das técnicas de manipulação e contracenação entre bonecos, atores e objetos, a pesquisa dramatúrgica e outras variantes.
Pode-se dizer que este “Cinza” é uma montagem que experimenta os resultados alcançados em todas estas frentes e, como trabalho formativo, concentra as descobertas e a tentativa de afinação dos materiais pesquisados.  Na área técnica, em que interessa fundamentalmente o domínio da manipulação e a contracena entre boneco e ator, sem dúvida já há ossatura suficiente para que se possa caminhar sobre as pernas de um repertório razoável. A formação da atriz e manipuladora Paloma Barreto, vinda da dança, empresta  senso de medida aos movimentos, o que é muito favorável à cena. Ajuda a tatear os tempos da ação sem atropelos e demonstra a segurança da gestualidade que nasce de um trabalho físico evidente.
Se esta frente está suficientemente coberta o mesmo não se pode dizer da narrativa. A encenação parece ter um gosto maior pelo acabamento plástico e pelo rendimento técnico que pelo acabamento dramatúrgico, ainda que na forma do espetáculo todas estas coisas apareçam amalgamadas. Dramaturgia aqui não significa nenhum tipo de compromisso com uma história redonda, com linearidade fabular ou com aristotelismos de nenhuma ordem. Significa apenas o chamado ao arredondamento do espetáculo na chave escolhida. 
O imaginário da peça anuncia sem dúvida um fundo social (dois personagens que vivem no lixo), explorado na  perspectiva de uma reflexão íntima. Entretanto a narrativa não tem ponto de vista (não se sabe se ela acontece a partir do olhar do personagem representado pela atriz, a partir do personagem do boneco ou se por outro, distanciado da ação). Não existem regras a serem aplicadas em relação a isto, senão aquelas apontadas como convenções da própria montagem. E  as convenções são vacilantes, de maneira que há um fio de história parcialmente sugerido  na relação entre as duas personagens e há também o apontamento de uma narrativa implícita, que deveria ser disparada a partir daquela primeira, mais referencial. A questão é que o espetáculo não se afirma nem em um nem em outro plano. Acaba se arredondando com alguma dificuldade de sentido. 
O que se disse no debate após a apresentação, sobre a desejada “abertura” de significados e a substância poética que demarcaria a linguagem  é um bom argumento e em parte pode justificar isto, mas não rigorosamente. Talvez seja preciso ainda ao grupo verificar se a abertura desejada não está, objetivamente, redundando em fechamento. Se aquilo que o encenador batizou “ signos” metafóricos estão presentes na representação com a potência poética esperada,  a ponto de abrir as portas para   leituras que, mesmo particulares, possam estar sustentadas. É preciso avaliar, então, que a metáfora também tem qualidades diferentes, não é um recurso de linguagem com um valor em si. 
Pela delicadeza das soluções e a preocupação formal apresentadas neste espetáculo é possível ver que a Cia. Fios de sombra já tem bons elementos para movimentar com mais desenvoltura os aspectos narrativos do seu trabalho, que certamente estão bem colados às soluções plásticas, mas não se bastam nelas.

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