Acompanhem agora a crítica publicado no site do FENTEPP (Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente) onde o espetáculo foi apresentado dia 24/09/2012:
Desde a entrada da atriz e manipuladora Paloma Barreto com
vestes de papel-jornal, cumprindo uma movimentação rígida e de mãos tateantes,
aquém à mobilidade potencial de um corpo humano, o espetáculo “Cinza” funda uma
zona de embaralhamento entre o animado e o inanimado. Essa será uma tensão
latente, embora nunca radicalizada, na encenação da Cia. Fio de Sombra, à
medida que se estabeleça a interação entre a manipuladora e o pequeno boneco
igualmente feito de páginas de jornal por ela encontrado entre montes e caixas
de mais folhas de noticiário a recobrir o palco.
Oculta sob um chapéu de abas largas, a manipuladora anima o
boneco executando um roteiro de ações erráticas condizentes a um homem
abandonado em meio a restos da civilização. A onipresença dos jornais,
notadamente norte-americanos, instaura um signo documental no espetáculo, de
cunho adulto, e acena para uma crítica socioeconômica ao sistema capitalista
que exclui seres como aqueles: boneco e manipuladora. Sim, pois também ela se
configura como uma excluída, uma vez que a consciência da presença da atriz é
logo despertada no boneco. A dramaturgia se constrói de modo que ela o manipule
em aparente apatia, mas faça com que ele a procure insistentemente, em impulsos
de indagação, consulta e fuga.
A interação que assim se delineia entre manipuladora e
boneco tende a diminuir a distância entre os dois planos, o do inanimado e do
animado, numa tentativa de convívio que, dentro da dramaturgia criada por
Rafael Curci, significaria a ruptura da solidão na qual cada um está afundado.
Desse modo, a companhia de Campinas joga com a linguagem do
teatro de bonecos, deslocando o foco que habitualmente recai somente sobre o
objeto manipulado para um questionamento relativo ao isolamento do manipulador
na técnica japonesa do kuruma ningyo – na qual cada boneco é animado por apenas
uma pessoa, que tem as mãos e os pés livres para essa ação porque se apóia e se
desloca sobre um banco com rodas. Aí reside a maior sofisticação do trabalho do
grupo: na elaboração metalingüística, que se serve de características
específicas da linguagem para promover os sentidos do espetáculo.
Contudo, as escolhas visuais impedem que esse procedimento
seja colhido com maior clareza pelo olhar do público. Distinguir as formas
torna-se uma dificuldade decorrente da opção pelo papel-jornal como substância
de toda cenografia e figurino. Por mais que o material dê unidade e faça
sentido dentro do universo proposto, em certos momentos não se pode reconhecer
os objetos nem os limites dos corpos da manipuladora e do boneco. Tal confusão
bem poderia ser um efeito a somar-se ao embaralhamento dos planos animado e
inanimado, mas, em vez disso, atua como um ruído, borrando o delineio da
gestualidade do boneco, de modo a ocasionalmente quebrar a ilusão pretendida.
“Cinza” escapa de ser um retrato trivial da rotina de um
miserável no momento em que complexifica essa relação com a manipuladora,
assumindo-a como personagem para além daquele boneco específico. Sobrepõe-se,
ao abandono social representado pelo homem-objeto, uma camada na qual a memória
de uma tragédia íntima se insinua no comportamento repetitivo e obsessivo da
manipuladora (porém, a esta altura, a encenação impõe ao espectador uma nova
dificuldade visual, sentida especialmente pela plateia mais distante do palco).
A opção pela sutileza do implícito e por uma dramaturgia aberta mantém o
espetáculo num campo de abstração e de sentidos dispersos. Fica o desejo por
ver o grupo verticalizar as possibilidades metalingüísticas e narrativas deste
trabalho, de modo a prover sua delicada construção de um maior poder de
afetação.



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